Hóquei no gelo
Como se prepara uma pista de gelo antes de um jogo
Entre a última camada de água e o apito inicial passam-se horas de trabalho que ninguém vê da bancada.
· Beatriz Salgueiro · 6 min de leitura

Coimbra — Quem entra num pavilhão de hóquei no gelo meia hora antes do início vê uma superfície branca, lisa e aparentemente banal. O que está debaixo dos patins é uma construção em camadas, montada ao longo de vários dias e depois vigiada de hora a hora por uma equipa que raramente aparece nas fotografias.
Camada a camada
A base é uma laje maciça atravessada por tubagem por onde circula um líquido refrigerante. Quando a laje chega à temperatura de trabalho, começa a pulverização: as primeiras camadas de água são finas, quase um vapor, e congelam quase de imediato. Só depois de existir uma película estável se aplica a tinta branca que dá contraste ao disco e se pintam as linhas, os círculos e as áreas.
Sobre a pintura voltam a acumular-se camadas de água até se atingir uma espessura final que, na maioria dos recintos, fica entre dois e quatro centímetros. Mais gelo do que isso não torna a superfície melhor: torna-a mais lenta a responder às máquinas e mais cara de manter à temperatura certa.
Frio a mais e frio a menos
O hóquei no gelo pede uma superfície dura, porque o disco desliza melhor e a lâmina agarra sem afundar. A patinagem artística pede o contrário: um gelo ligeiramente mais quente, que perdoa as receções de salto. Quando o mesmo recinto acolhe as duas modalidades no mesmo fim de semana, alguém tem de decidir qual das duas fica com o gelo que prefere — e essa decisão nota-se no primeiro minuto de treino.
Um gelo bom não é o mais frio nem o mais branco: é o que responde da mesma maneira no primeiro e no último minuto.
O trabalho entre períodos
As máquinas de ressurfaçamento não deitam água por cima do gelo estragado. Primeiro raspam uma camada muito fina com uma lâmina horizontal, recolhem essa neve para um reservatório interno e só depois espalham água quente através de um pano molhado. A água quente contém menos ar dissolvido, congela com menos bolhas e devolve uma superfície mais uniforme do que a água fria daria.
Ao mesmo tempo, os desumidificadores trabalham em contrarrelógio. Um pavilhão cheio produz humidade, e a humidade condensa sobre a pista, embacia os vidros de proteção e forma aquela névoa baixa que às vezes se vê nas imagens. Controlar o ar é tão determinante como controlar a laje.
Porque é que o gelo muda durante o jogo
Ao longo de um encontro o gelo vai-se abrindo em sulcos, sobretudo junto às balizas e nas curvas onde os patinadores travam. No terço final, o disco começa a saltar em vez de deslizar, os passes ficam curtos e as equipas passam a jogar mais pelas tabelas. Muitos treinadores contam com isso e guardam para o fim as jogadas que dependem menos de um piso perfeito.
Para quem assiste, há um pormenor fácil de observar: repare no ruído. Um gelo em boas condições produz um som seco e curto quando a lâmina morde; um gelo cansado soa abafado. É o mesmo sinal que a equipa de manutenção usa para decidir se vale a pena entrar com as máquinas antes do intervalo previsto.